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Edição
5 - Jun/03
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Morcegos Negros: PC e Máfia
FIGUEIREDO, Lucas. Morcegos Negros. Record, 2000. 436
p.
Márcio C. Coimbra
Há
alguns meses foi lançada uma obra com revelações muito importantes sobre um
período que se iniciou em 1989 e ainda não terminou. O autor é Lucas Figueiredo,
jornalista. O livro: Morcegos Negros: PC Farias, Collor, Máfias e a história que
o Brasil não conheceu. O autor desvenda, desmistifica e esclarece muitos fatos
ocorridos com PC Farias. O relato vai desde sua fuga do Brasil em 1993 e sua
captura na Tailândia, passando por uma interessante abordagem acerca das várias
equipes que tentaram desvendar sua morte e deságua no principal: a conexão de
Paulo César Farias em um grande esquema de lavagem de dinheiro. Este esquema,
muito provavelmente, era o mesmo usado pelos grandes cartéis de droga para a
lavagem do dinheiro proveniente do tráfico de entorpecentes.
Qual a rota
seguida pelo dinheiro de PC e onde ele se encontra hoje? Estas são as grandes
perguntas do livro. Até onde foi possível investigar, foi desvendada, em parte,
a grande rota dos dólares de PC Farias. Em um fluxograma que se encontra na
obra, pode-se verificar que o dinheiro circulou por vários países, em contas
abertas por testas-de-ferro e empresas de fachada de PC. O empresário mantinha
uma “conta mãe” em Roterdã, Holanda. De lá, o dinheiro foi dividido em várias
contas menores em Genebra e Zurique na Suíça e Nova York e Miami nos EUA. O mais
interessante é observar que tanto a “conta-mãe”, quanto uma das contas de Nova
York, receberam dinheiro de mafiosos narcotraficantes, pois a limpeza dos
recursos de ambos era realizada conjuntamente. Ali reside a conexão de PC com a
lavagem de dinheiro derivado do tráfico de drogas. Além destas contas já
citadas, o empresário alagoano, mantinha contas em Montevidéu no Uruguai,
Londres na Inglaterra e São Paulo. Esta última, localizada no Brasil, também
recebia dinheiro de narcotraficantes. Este esquema foi desmembrado
principalmente em função do trabalho da polícia italiana e pela Procuradoria da
República de Turim, com ajuda da Polícia Federal brasileira.
A Itália
chegou a um sistema de investigação, acusação e julgamento muito eficiente. A
cooperação da polícia investigativa do departamento antimáfia, juntamente com a
Procuradoria da República italiana, foi decisiva para a captura de vários
mafiosos, quebra de rotas de tráfico européias e desmembramento da rota do
dinheiro proveniente destes ilícitos. O Brasil, infelizmente, não se mostrou
suficientemente ágil para conseguir repatriar parte do dinheiro de PC, deixando
prescrever vários ilícitos. Vale ressaltar que até poucos anos atrás não havia
lei brasileira que disciplinasse a lavagem de dinheiro como crime. Além disto, a
Polícia Federal encontrou inúmeros obstáculos quando tentou investigar o caso de
PC e sua relação com a lavagem de dinheiro realizada pelos narcotraficantes. Os
problemas foram inúmeros, desde a burocracia que acarretou a demora de quase um
ano para a tradução oficial de um documento vindo da Suíça, até uma possível
rixa entre a Procuradoria da República e a PF. Ao contrário, em outros países,
conforme mostra Lucas Figueiredo, como o Canadá, Estados Unidos e Itália, a
cooperação é grande e dá resultados. Um grande exemplo foi o caso a quebra da
rede de lavagem de dinheiro e tráfico de entorpecentes da família Caruana,
integrantes da Cosa Nostra, Máfia da Sicília.
Se o Brasil deseja
enfrentar o problema do tráfico e suas conseqüências, deve, além de tipificar
eficientemente os crimes como o de lavagem de dinheiro; firmar acordos de
cooperação com outros países para que se agilizem as investigações. Desta
maneira, pode-se rastrear de forma mais eficiente as rotas de tráfico, lavagem e
localização dos traficantes, chegando-se a uma punição efetiva dos responsáveis.
O livro de Lucas Figueiredo é muito interessante, especialmente para
aqueles que se interessam pelo assunto e desejam entender melhor o envolvimento
de PC com a `Ndrangheta – Máfia da Calábria, as investigações nacionais e
internacionais, as rotas de lavagem de dinheiro transnacionais, sonegação e
evasão de divisas, a máfia invisível, a história da morte de PC Farias e
principalmente a ofensiva internacional que conseguiu prender os grandes líderes
do narcotráfico nos últimos anos. Ao final teremos uma certeza: apesar da morte
de PC, ainda existe muito para ser descoberto.
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